Entrevista: A incrível visão de literatura da Dalu Menezes (com indicação de livros e autores)

A literatura é um mundo à parte. É o único espaço paralelo em que podemos viajar sempre, conhecer pessoas novas, viver histórias sem interferir nelas e ser completamente ‘interferido’ por elas. Desde sempre a melhor opção para quem quer escrever melhor, aguçar um senso crítico ou até se entreter de forma genuína. Porém, tudo muda quando as pessoas mudam.

Perceptivelmente o cenário literário vem se transformando de acordo com o movimento nada linear da sociedade. Desta forma surgem grandes autores influenciados por escritores como Machado de Assis, Clarice Lispector e José de Alencar, como também crescem autores mais comercias em um momento que livros adolescentes se estapeiam pelo topo do ranking de mais vendidos. Então, o que é literatura? O que é publicidade? Dentre tantas opções, você pode me dizer que obra posso ler e me apaixonar como me apaixonei por Dom Casmurro? Creio que sei exatamente quem pode responder isso.

Professora e mestre em literatura, Dalu Menezes tem o dom da palavra e escreve divinamente bem, além de ser uma leitora assídua. Não escrevo isso para valorizar esse post, escrevo por ter o prazer de conhecer o trabalho que Dalu desenvolve. No tradicional ENCOMFAC (Encontro de Comunicação Social da Faculdade Cearense), sempre ministra as oficinas mais disputadas do evento, além de ter sido recentemente convidada para pela Rede Cuca para discutir o  papel da mulher no processo histórico. Em uma entrevista via e-mail, perguntei para Dalu seus gostos pessoais em literatura e sua visão particular sobre o atual cenário literário. A partir disso consegui entender e formar melhor minha própria visão sobre essa configuração. Leia a entrevista completa abaixo e opine você também.

Nauan: Dalu, qual foi o primeiro livro que você leu? Porque resolveu ler ele? Qual foi a sensação após terminar de ler?

Dalu: O primeiro livro que li (e me tocou profundamente) foi “História meio ao contrário”, da Ana Maria Machado. Ele foi indicado pela professora de português, para a realização de um trabalho escolar. É uma obra infantil. O enredo fala sobre a vida de um rei que não conhece a noite (literalmente) e fica impressionado quando descobre a existência dela. Isso o faz questionar quantas coisas acontecem no reino e não chegam ao seu conhecimento. O livro aborda, de forma leve, situações como: jornada de trabalho, pobreza, injustiça, criação de filhos. Através de uma linguagem divertida, a criança é levada a refletir sobre variadas situações. Acho importante os adultos lerem também.

Nauan: Existiu algum livro ou autor que foi determinante para a escolha da sua profissão?

Dalu: Para a escolha da minha profissão… Não, porque acredito que ela já estava mesmo no meu destino, rs. Mas o primeiro autor que chamou minha atenção foi José de Alencar, com seu livro “Senhora”. Em uma sociedade na qual a mulher ainda precisa provar seu valor e sua capacidade, ler um livro em que a personagem principal é uma mulher independente, cheia de inteligência para conduzir seus negócios e realizar seus propósitos, em pleno século XIX, realmente estimulou muito meu interesse pelas diversas possibilidades que a leitura pode nos proporcionar.

Nauan: Qual seu autor preferido e como você vê a influência desse autor no atual cenário literário?

Dalu: Meu autor preferido é Machado de Assis. O “bruxo do Cosme Velho”, como ele era conhecido, desenvolveu uma obra que abordou as temáticas universais (amor, ódio, traição ambição, etc), a presença intensa dos valores morais tão inerentes à sociedade da época, as relações matriarcais que apresentavam a mulher como a grande provedora (e isso numa sociedade patriarcal), além de priorizar o lado psicológico dos personagens, provocando inquietações nestes e no leitor. Tudo isso foi escrito com uma linguagem irônica, na qual, muitas vezes, o leitor precisa estar profundamente atento para identificar e compreender.

Acredito, sim, que Machado de Assis ainda influencia os autores. Eles apresentam uma linguagem atual, mas transferem a mesma preocupação estética com a obra, a reflexão dos mesmos questionamentos e até a ironia peculiar do mestre.

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“A literatura tem como papéis importantes nos fazer sonhar, provocar reflexão, divertir, denunciar a realidade, nos ensinar a viver e até mesmo nos ajudar a construir nossa identidade.”

Nauan: Como você enxerga a recente valorização de obras estrangeiras como ‘Cinquenta Tons de Cinza’, ‘Crepúsculo’ e outros títulos internacionais que viraram febre e tiveram sua viralidade dobrada com adaptações para o cinema? Livros como esses podem ser a porta de entrada para os jovens no mundo da literatura ou é só impressão?

Dalu: A literatura tem como papéis importantes nos fazer sonhar, provocar reflexão, divertir, denunciar a realidade, nos ensinar a viver e até mesmo nos ajudar a construir nossa identidade. Olhando por esses aspectos, acredito que a leitura de quaisquer obras literárias seja válida, porém, é preciso que o lado comercial dos livros não sobreponha o artístico. Quando leio uma obra de Guimarães Rosa, Rachel de Queiroz, Patativa do Assaré ou João Cabral de Melo Neto, vejo uma denúncia social forte, que instiga o pensamento crítico do leitor. Quando leio algo escrito por Clarice Lispector, percebo a carga filosófica e psicológica que muito pode contribuir para o crescimento pessoal de quem lê. Quando leio Vinicius de Moraes, o nosso “poetinha” do amor, identifico, através de um lirismo intenso e, ao mesmo tempo leve, as diversas nuances amorosas que as relações podem ter. Ou seja, todos esses autores tratam com profundidade os temas da vida humana, respeitando o sentido estético que a obra deve ter. São livros assim que realmente cumprem o papel literário.

Não gosto muito das adaptações para o cinema. Quase sempre a obra é modificada, não apenas na sequência de fatos como também na própria essência do enredo, desta forma, o intuito do filme se torna diferente do objetivo do livro. Para completar, quem vê o filme, geralmente, não lê o livro. Isso faz o telespectador ficar com uma impressão distorcida da obra literária. São poucas produções cinematográficas que conseguem manter (quase que inteiramente) a proposta da obra. Um exemplo positivo é “A menina que roubava livros”. Este foi uma boa surpresa.

Nauan: E sobre os autores brasileiros atuais: Você tem lido quais? Acha que eles têm conseguido manter a qualidade e ascensão literária que tivemos com Machado de Assis, Rachel de Queiroz, Ariano Suassuna e outros?

Dalu: Bem, meu segundo autor preferido, rs, é o Mia Couto. Ele não é brasileiro, mas africano. O que mais chama minha atenção na obra do Mia é o fato dele fazer uma prosa poética. Uma frase de um personagem já é o suficiente para nos fazer viajar em mundos interiores que somente nós sabemos por onde trilhar. Seus livros também nos permitem conhecer uma África que mais parece, em alguns momentos, uma extensão do Brasil, tão parecidas são as alegrias e as questões sociais dos dois povos. Indico toda a obra do Mia!

Os brasileiros que mais me instigam, hoje, são Fabrício Carpinejar e Martha Medeiros. Eles têm uma capacidade imensa de escrever as coisas que pensamos antes da gente pensar, rs. E por serem nossos contemporâneos, tratam de assuntos inerentes à alma de todo mundo, creio eu. Também indico ambos.

Nauan: Por fim, qual livro nacional/ internacional que você indica?

Dalu: Indiquei Mia Couto, Fabrício Carpinejar e Martha Medeiros. Mas quero acrescentar também José Saramago, especificamente o clássico “Ensaio sobre a cegueira”. É um livro forte, que mostra as angústias pelas quais passam aqueles que conseguem “ver” além do que os outros são capazes…

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Nauan Sousa

Jornalista, social media e fã de cultura pop. Não gosto de determinar, prefiro analisar. Gosto de palavras, séries, doce e cerveja. Provavelmente você não irá com minha cara logo de cara, mas se você me der 3 minutos e 10 segundos posso te convencer que o 'Sério, Nauan?' vale sua visualização.

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