Crítica | Faço parte dos 3% que gostaram de “3%” da Netflix; Entenda porquê

Lembro quando assisti o primeiro trailer de 3% da Netflix fiquei muito ansioso para assistir a série. Como bom fã de Jogos Vorazes, Laranja Mecânica, O Show de Truman, Black Mirror e filmes/séries que fazem críticas à sociedade, fiquei bem curioso para saber o que a primeira série brasileira da Netflix tinha a oferecer. Recordo que não tive tempo de assistir de imediato a série criada por Pedro Aguilera, mas vi críticas massacrando a produção.

3% foi massacrada em críticas pela mídia brasileira (Imagem: Reprodução)
3% foi massacrada em críticas pela mídia brasileira (Imagem: Reprodução)

       Foram sites, perfis de facebook, lives de redes sociais, etc falando que a série era ruim, mas o que todos tinham em comum em seu discurso era: não existia nenhum bom argumento para não tentar assistir 3%. Li críticas vagas. Parecia tudo muito parcial. Então decidi ver a produção e tirar minhas próprias conclusões. Assisti e listei 5 motivos que me faz ser parte dos 3% que gostaram de assistir 3%.

 

Motivo 1: Linearidade

       Muitas pessoas, muitas mesmo, reclamaram que 3% tinha muitas cenas monótonas. Concordo, em gênero, número e grau. Mas, o que as pessoas esqueceram de mencionar é a importância dessas cenas para a compreensão do drama criado pelo enredo. Estamos falando de uma trama estreante, que necessita mostrar ao seu público uma explicação plausível para existir. Colocar uma seleção de um povo para entrar em um lugar que oferece uma vida melhor pode parecer simples, mas não é. A produção precisava explicar o porquê do sistema de seleção, como ele funciona, e a razão dos personagens estarem lá. Isso foi um ponto forte na série. Por se tratar de uma trama que tem muitos momentos de tensão psicológica, ela foi bem na explicação de sua existência e deixou poucos furos para trás.

       Ou seja, as cenas ‘lentas’ foram descritivas. Deixou tudo linear e engatado para uma segunda temporada. Não é um banho de sangue, 3% é uma crítica, talvez seja difícil um telespectador de ‘The Walking Dead’ e derivados entender isso de primeira. Desconheço uma boa produção que não explica a que veio, qual seu contexto, etc. Inclusive, notar os enredos de cada personagem, suas histórias e motivações, foi uma ótima forma de começar uma série.

 

Motivo 2: Personagens

       Apesar dos atores pecarem em muitos momentos em sua atuação, os personagens de 3% em si são bons. Diferente de Supermax, por exemplo, eles são bem construídos, suas atitudes são ‘entendíveis’ dentro de cada contexto. Porque citei Supermax? Porque apesar de muito boa, a série global peca por ter alguns personagens com personalidades mal elaboradas, que em um momento tem uma nuance, em outro aparece com atitudes controversas sem razão aparente. Isso não é cativante para telespectador que costuma “adotar” personagens em séries. 3% faz isso bem, cada personagem tem sua personalidade, e a única motivação para a série não ter ganhado um herói popular pra galera é a atuação fraca mesmo. Uma pena, porque Joana é ótima e se na segunda temporada Vaneza Oliveira (atriz que interpreta a personagem) se garantir, ela tende a ser um personagem referência para a trama.

 

Motivo 3: Trilha Sonora

       Uma trilha é uma trilha, não é? Fazer com que a parte sonora de uma série case perfeitamente com seu enredo é “puta” trabalho e faz toda a diferença. Podemos ver um exemplo clássico e atual: Stranger Things, que virou até playlist de Spotify de tão boa que ficou. No caso de 3% a trilha conversa muito bem com as cenas da produção brasileira, e sim tem muita referência verde e amarela nas batidas que dão vida ao “Processo”. Só pra gente bater o martelo de excelente trilha podemos dizer que a série tem Elza Soares com “Mulher do Fim do Mundo” como tema da personagem Joana.

Mas pra não dizer que só falei isso e saí, tem uma entrevista da Billboard com o compositor da trilha de 3% e ele disse que procurou uma linguagem própria para representar a série musicalmente.

“Procurei uma linguagem própria, nós temos que desenvolver a nossa linguagem. Aparecer um Noel Rosa numa série que vai para o streaming é algo muito poderoso”.

Sim, a trilha é bem ‘abrasileirada’ e tem de sintetizadores à zabumba. Enfim, indiscutivelmente bom para os ouvidos.

 

Motivo 4: Cenário e figurino

       Precisamos falar dos cenários. Sim, os ambientes de 3% são bem na média, são bons e dão o reforço visual que a série precisa. Não é nada muito futurístico, mas também não é nada fora da realidade contemporânea. E vamos dar as mãos e ser sinceros: É difícil uma produção futurística não parar numa linha cafona em seus acessórios e cenários. 3% faz tudo de maneira leve e tem algumas coisas trashs, mas nada que faça você ter uma vergonha alheia absurda.

Imagem: Reprodução
Imagem: Reprodução

       Figurino. Bom. Sim, o figurino é bom e passa perfeitamente o visual pós-apocalíptico que a Netflix quer que você embarque. O figurino só não é excelente, porque no ‘Lado de Cá’, lado dos 97%, tem umas roupas rasgadas que são bem forçação de barra, que você sabe que aquilo ali foi feito por algum objeto cortante e não soa natural. Mas mesmo assim, depois de alguns episódios, você se acostuma à elas.

       Vocês devem estar se perguntando o que figurino e cenário tem a ver com análise de série. Se você está se perguntando isso, posso dizer que: tudo. Lembre-se que qualquer produção televisiva ou de streaming precisa ser convincente visualmente falando, ou de nada adianta a atuação magnífica de alguém ou a bela construção de um personagem. Precisamos reconhecer a trama dentro do ambiente que ela se propõe a estar, e vamos concordar que nesse aspecto 3% passa na média. Poderia ser melhor, poderia, mas não é ruim.

 

Motivo 5: Mensagem

       3% tem críticas a rodo que batem em vários aspectos como classes sociais, governo totalitário, relação do ser humano com a tecnologia, exploração da miséria alheia, alienação, etc. Uma produção brasileira falar de tudo isso em uma época tão delicada politicamente falando é um ganho maravilhoso para o público. Absorver os vários aspectos transmitidos pelas cenas também é uma outra grande vantagem de 3%. Na minha humilde opinião, Netflix estreou muito bem as produções brasileiras e com uma série que possuem mensagens e força em seus discursos, cabe a cada espectador decodificar o material.

Resumo da ópera

       A série 3% está na média, não é a melhor série que você vai ver na sua vida, mas vale sua atenção e sua visualização. A intenção de 3% é absolutamente grandiosa e sua execução deixa a desejar às vezes. Os maiores incômodos podem vir de alguns furos de enredo e apatia de alguns atores, porém o contexto geral da série brasileira é muito boa. O que acho é que as críticas foram potencializadas de forma muito injusta, 3% não mereceu metade das “marretadas” que levou das pessoas, mas é aquilo, né? Produção brasileira sofre um puta preconceito dos próprios brasileiros, o que é uma pena. Não vi estardalhaço com cenários ruins de Once Upon a Time, nem exaltações com atuações de Scream, nem textões com o marasmo de boa parte de The Walking Dead, mas para a novata 3% teve tudo isso e um pouco mais, e pasmem, em vários aspectos ela “sambou” bonito na cara de muita produção gringa.

Se estou esperando 3% – temporada 2? Acho que você pode adivinhar a resposta.

 

Avaliação

Nota 3,5: É legal!

 

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Nauan Sousa

Jornalista, social media e fã de cultura pop. Não gosto de determinar, prefiro analisar. Gosto de palavras, séries, doce e cerveja. Provavelmente você não irá com minha cara logo de cara, mas se você me der 3 minutos e 10 segundos posso te convencer que o 'Sério, Nauan?' vale sua visualização.

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