“13 Reasons Why” tem lado positivo, mas não podemos desconsiderar que em vários aspectos a série é irresponsável

Desde que entrou no catálogo da Netflix, a série “13 Reasons Why” vem causando um estrondo de comentários nas redes sociais. Tags, textões, análises e críticas se misturam a relatos de pessoas que sofreram bullying e alguns alertas sobre o efeito positivo e o negativo da série.

 

Para quem não sabe do que se trata, ”13 Reasons Why” conta a história de Hannah Baker, uma adolescente que passa por diversos problemas no colégio, se torna vítima de um crime, sofre e bullying e decide tirar sua própria vida. Antes disso ela grava fitas explicando as razões pela qual decidiu se suicidar e essas fitas passam pelas mãos dos personagens da série que de alguma forma contribuíram para que Hannah decidisse se suicidar.

 

Qual o efeito positivo de ”13 Reasons Why?”

É inegável que a nova produção da Netflix trouxe à tona temas importantes como bullying, LGBTfobia, machismo, abuso sexual e até o próprio suicídio, que muitas vezes não se torna temas de debates em colégios, família e etc. O suicídio é, por exemplo, uma das maiores causas de morte na adolescência e retratar os sinais de uma pessoa  que pode estar precisando de ajuda é um bom serviço, até para observarmos mais as pessoas ao nosso redor e poder ajudá-las se preciso.

Na série, Clay (Dylan Minnette) ouve as fitas deixadas por Hannah (Katherine Langford) para entender porque ela se suicidou. (Imagem: Reprodução)

 

Lembro de uma tag que foi levantada no Twitter esses dias, por causa da série, onde as pessoas comentaram quando sofreram seu primeiro bullying. Eram 140 caracteres pesados de ler. O bullying é um tema seríssimo que atinge a vida e a auto estima de muitos jovens ao redor do mundo e muitas vezes é tratado de forma irresponsável por entidades de ensino. Por isso “13 Reasons Why” levantar esse tema para professores, pais, diretores de escola entenderem o que acontecem na vida de um adolescente dessa geração é um ponto muito bom. Afinal, nenhuma geração é como a outra e é negligente falar que bullying é apenas uma brincadeira. Além de não ser engraçado, o bullying pode evoluir rapidamente para agressões físicas, afinal já são também uma terrível violência psicológica.

 

Hannah Baker, efeito Werther e as irresponsabilidades que tornam a série arriscada

A personagem Hannah Baker, interpretada pela Katherine Langford, é protagonista de cenas perturbadoras dentro da série. Algumas necessárias para o papel de conscientização que a série demonstrou ter interesse de se tornar, mas outras completamente desnecessárias e perigosas. Mostrar como Hannah se matou foi algo bem irresponsável na produção e foge do que diz a Organização Mundial da Saúde, que pede para evitar que se divulgue esse tipo de cena retratando como cometer suicídio. Para quem não sabe existe um termo na psicanálise chamado efeito Werther que  se destina a definir um “efeito de imitação”, ou seja, pessoas mais fragilizadas e vulneráveis ao suicídio tendem a se influenciar por suicídios de personalidades como Marilyn Monroe ou em cenas de produções como essa. O termo surgiu de um caso real de uma epidemia de suicídios em alguns países após o lançamento do romance de Johan W. Von Goethe chamado “Os Sofrimentos do Jovem Werther” (1774), que conta a história de um rapaz que cometeu suicídio com um tiro na cabeça após desilusão amorosa.

Katherine Langford interpreta Hannah Baker (Imagem: Reprodução)

 

Outra falta de responsabilidade da série é a falta de avisos de que a produção pode despertar diferentes gatilhos emocionais. Para quem passou por alguma ou algumas das situações ali retratadas, é doloroso reviver tudo isso e pode ser preocupante caso a pessoa já tenha passado por alguma crise de ansiedade ou até depressão.

Um ponto que pode ser interpretado erroneamente por quem assiste a série, é o fato de Hannah sem ver sem outra opção que não o suicídio, não toca nem sequer no estado mental de um adolescente a chegar naquele ponto. Concordo que na vida real há situações que pareçam assim, sei que a série é baseada num livro, mas ao ver cenas de Hannah pedindo ajuda sem sucesso, pode deixar, para quem passa por essa situação a sensação de que não adianta pedir ajuda. Como disse, esse ponto pode ser interpretado como errado. Além disso, já que a série fez parecerias de ações com o Centro de Valorização a Vida, valia que o número (141) fosse divulgado ou site. É o mínimo depois de passar uma possível impressão de falta de ajuda.

 

Empatia e gatilhos emocionais

No fim de tudo é uma questão de empatia. Afinal a série fala muito sobre isso, se colocar no lugar do próximo, então porque não entender que nem todo mundo vai encarar a série como possivelmente alguns encararam? “13 Reasons Why” mexe com o psicológico, com uma fase complexa chamada adolescência e seu público também é muito adolescente. Por isso é importante verificarmos pontos negativos e positivos e debater sobre o tema como conscientização.

 

Não recomendem “13 Reasons Why” para quem tem depressão, ou já tentou suicídio, viveu problemas similares aos da narrativa, por favor. Não é muito responsável a abordagem da série e mexe com temáticas perigosas. Sei da intenção positiva, mas tem muito a ser considerado ali. Não é uma mensagem para todos, é uma série cheia de gatilhos emocionais.

 

 

 

 

 

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Nauan Sousa

Jornalista, social media e fã de cultura pop. Não gosto de determinar, prefiro analisar. Gosto de palavras, séries, doce e cerveja. Provavelmente você não irá com minha cara logo de cara, mas se você me der 3 minutos e 10 segundos posso te convencer que o 'Sério, Nauan?' vale sua visualização.

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