O Brasil virou cenário de ‘Jogos Vorazes’ e ninguém notou ou estamos esperando Katniss aparecer?

O cenário não é nada simples. São tempos duros e difíceis e provavelmente esse texto não será levado a sério como deveria, afinal ele está onde está, um blog de cultura pop, não é mesmo? E para ajudar bem na analogia precisarei da ajuda de um livro que conheço bem: Jogos Vorazes de Suzanne Collins.

 

Para sintetizar bem o livro para quem não leu, ou o filme para quem não assistiu vamos com uma rápida sinopse. Um governo tira da população o suficiente para seu sustento, para a manutenção de seu sistema, a população por sua vez se divide em classes e tenta sobreviver com o que resta do que o governo permite que ela tenha direito. Dessa forma, algumas pessoas possuem muito, outras bem pouco e esse disnível social se acentua cada dia mais, pois as pessoas não percebem o quanto é injusto ter que abdicar de seus direitos básicos para manter o luxo de seus governantes, quanto esses governantes não abrem mão de absolutamente nada para o bem das pessoas. Apenas tira sua mão de obra para fazer seu capital girar. O pior ainda está por vir. Não bastando tudo isso as pessoas são tratadas como tributos, onde estão expostas a violência diária, numa espetacularização da vida onde a mídia tem o papel de televisionar de perto mortes de pessoas que nada de mal fizeram durante a vida a não ser ser vítima de todo um sistema implantado desde que nasceram.

Gostou da sinopse do livro/filme? E se eu te dissesse que eu estava falando do Brasil e não da obra de Suzanne Collins? Você se supreenderia? Acha que fui ríspido com as palavras ou carreguei demais o tom no lado negativo de estar no Brasil nesse momento político e social? Então faça o seguinte, analise bem as reformas trabalhistas que estão sendo feitas no atual governo. Sério, tire um tempinho agora e analise o cenário a partir dessas mudanças. Sem partidos, sem políticos favoritos, sem lados, apenas você como cidadão, trabalhador, pessoa. Vamos a algumas consequências dessa reforma:

 

Resumo rápido? Trabalharemos por mais tempo, com menos condições e recursos. Já temos a saúde defasada e que não atende o povo da forma que deveria e assim nossos cálculos rapidamente chegam ao trabalhar até a morte como formigas zumbis enquanto há uma série de benefícios para os políticos que não abriram mão de seus enormes salários e condições em prol da melhora econômica. Decidiram tirar de quem já tem pouco, nós. Ok, agora vale a pergunta: Você escolheu por isso? Houve algum plebiscito ou algo perguntando se isso deveria ser feito? Mas, espera, não é democracia? Ah, não escolhemos também nosso presidente, não é? Então parece que não exagerei na comparação com Jogos Vorazes. O governo retratado na obra não é eleito pelo povo, as decisões deles não passam por aprovação popular. As pessoas são submetidas ao que eles querem. Me parece justa a comparação. O que? O livro/filme é pior porque mostra crianças sendo entregues para lutarem ao vivo em uma arena como tributo enquanto a população mais rica + governantes assistem tudo? Talvez me pareça com o que a gente viva no dia a dia.

 

Não é engraçado como ano pós ano damos de cara com notícias como essas e nada mais faça efeito pra gente. Estamos inertes? Isso são vidas perdidas. Pessoas como eu, como você que está lendo, que todo dia abrem a porta de casa (as vezes nem isso) e estão sujeitas a jogar um jogo cruel de sobrevivência. Estamos numa parada de ônibus indo trabalhar e um cara que não teve educação como base, viu sua mãe morrer na fila de um hospital, ou apenas se meteu com traficantes, ou está psicologicamente afetado sem tratamento, ou tudo isso, ou nada disso e está com uma faca, arma ou o que seja na nossa frente em um jogo que nós não percebemos que fomos jogados em arena. Eu ou você tendo que ir trabalhar para nos sustentar na sociedade que pede cada vez mais nosso consumo, ele renegado e a margem da sociedade esperando um momento para levar bens materiais ou nossa vida. Fomos colocados ali e se sair sangue minutos depois temos câmeras registrando, provavelmente uma nota de jornal, um bloco em um programa sensacionalista, um texto de Facebook resumindo tudo a um mero encontro, quando na verdade o jogo continua. Pareço cruel ou começou a fazer sentido o fato dos governantes andarem com seguranças e carros blindados pagos pela gente enquanto algumas mortes ainda servem de palanque para discursos sem nenhum empatia ou remorso? Eu juro, só queria estar sendo injusto, mas o tal jogo já acontece e estamos nele, jogados como tributos no estilo “viva cada dia”. Enquanto banalizamos absolutamente tudo.

 

Partidos? Há no filme, dois. Qual deles funciona? Nenhum. Qual deles pensam em benefício próprio? Ambos. Em época de “eleições” colamos em nosso peito adesivos com rostos que parecem conhecidos. Ouvimos discursos. Assim como Katniss (personagem principal de Jogos Vorazes) ouviu a Presidente Alma Coin e conseguiu identificar que ela queria o mesmo que o governo opressor: poder. Vocês acham que os políticos querem o que? Você ou o poder que você entrega em suas mãos? Vamos lá, não é difícil deduzir e também não estou aqui pra julgar. Sou igual a você.
Então o que podemos fazer? Podemos ficar parados. Podemos sim, ué! Afinal, é difícil. Esse negócio de ir às ruas como Katniss pediu que o povo fosse é bem conflitante, talvez esperar que tudo se resolva num efeito cinematográfico seja mais confortável, e vamos, correr riscos não é bom, não estamos no cinema, não é? Mas e quando vai acabar? É mundo real, não tem Katniss e a própria Katniss veio revolucionar Panem anos depois, fora isso ela é ficção. Sim, uma ficção criada na sociedade atual, criada lá nos EUA onde a situação também não tá nada boa, mas poxa, parado? É isso? Não vai buscar ser o herói de si mesmo já que não vem uma garota com flecha e força de vontade te salvar dessa merda em que estamos atolados? Compartilhe sua indignação nas redes, sim, isso mostra que você não está nada satisfeito com essas reformas em que nós não participamos, vamos às ruas exigir que nos ouçam porque nós somos o povo, quem sofre diretamente com essas mudanças. Queremos escolher o presidente, queremos uma reforma política que nos represente, não queremos alguém no poder que alimente mais ódio do que a sociedade em si só já nos ensina. Muitos políticos aparecem querendo colocar lados para que briguemos, mas somos um só, sofremos como um só e o que difere a gente de Jogos Vorazes é que infelizmente a Katniss não vai aparecer toda politizada e cheia de atitude. Somos nós, os jovens que escutam Lady Gaga, esperam a volta de Paramore e Sandy e Junior (ou não), cria gatos e cachorros, coloca um rock alto ou até um forró, compartilha vídeo de bebê e dá risada na praça de alimentação do shopping que temos que ir nas ruas. Somos nós desacreditados, que muitas vezes por estarmos nesse blog nos rotulam de ignorantes porque amamos filmes, músicas, séries e até entramos em matérias como essa por causa da foto da Jennifer Lawrence.

Não tem nada de errado em sermos nós. O que está errado é ficar parado. Somos uma geração complicada, de fato, vamos reconhecer, mas não vamos deixar que nossa geração seja rebaixada, porque somos inteligentes, temos voz e podemos fazer a comunicação girar. Somos os caras que vão pra rua dar a mão para o irmão e seguir gritando por igualdade, mas também somos a geração do Fora Temer na cover do Facebook. O que tem errado no nosso jeito de ser Katniss? Nada. Por isso o Brasil precisa, finalmente, que nossa geração saia de tributos para heróis. Porque sim, o Brasil tá em cenário de filme de futuro distópico e não é todo mundo que sabe o que aconteceu, mas precisamos sair, e fazer um novo futuro, um que inspire nossos filhos, um que nos dê aposentadoria, educação, dignidade e o mais importante, a certeza de que somos os diretores desse longa metragem.

 

Lembre-se o que diz o livro/filme: “A esperança é a única coisa mais forte que o medo”

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Nauan Sousa

Jornalista, social media e fã de cultura pop. Não gosto de determinar, prefiro analisar. Gosto de palavras, séries, doce e cerveja. Provavelmente você não irá com minha cara logo de cara, mas se você me der 3 minutos e 10 segundos posso te convencer que o 'Sério, Nauan?' vale sua visualização.

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