Entrevista | Gloria Groove: “Percebi que montada me sentia livre de amarras e da necessidade e me esconder por ser como eu sou”

Dona de uma voz incrível e super empoderada, a drag queen Gloria Groove é uma das artistas nacionais mais completas de nossa geração. Com clipes maravilhosos e um álbum repleto de verdadeiros hinos, Gloria mistura o rap com a cultura drag de forma corajosa e singular.

 

Gloria cresceu em um ambiente cercado de música, pois sua mãe e tia cantam e em sua infância participou do Raul Gil e da novela da Record, Bicho do Mato. Hoje, seu álbum “O Proceder” está disponível em diversas plataformas digitais como Spotify e já tem singles consagrados como “Dona” e “Império”.

 

Conversei com Gloria Groove via e-mail sobre sua carreira, representatividade e até seu novo clipe que está próximo de ser lançado, “Gloriosa”, dá só uma conferida nessa entrevista mais que especial.

 

 

 

 

 

 

 

 

Nauan: Quando você decidiu se tornar Gloria Groove e como surgiu este nome?
Gloria: Foi em 2014 após ter me envolvido com teatro musical. As iniciais vieram primeiro pois são as mesmas da minha mãe, e queria homenageá-la nesse aspecto. Gloria vem da cantora Gloria Gaynor e da relação que tive com a igreja evangélica quando criança, e Groove vem da minha conexão com a música negra e o nascimento do funk-soul nos anos 70, referências das quais me banhei graças a minha mãe, que também é cantora.

Nauan: Suas músicas tem total relação com o rap. Onde surgiu esse interesse? Como foi juntar esse dois mundos distintos, o da cultura drag e a do rap?
Gloria: O assimilar das referências pra mim acontece muito naturalmente, então venho carregando comigo desde a pré-adolescência o interesse pelo hip-hop e pela capacidade de rimar. O que me libertou na verdade a ponto de realmente fazê-lo e aprimorar cada vez mais, foi a aproximação com a cultura drag. Percebi que montada me sentia livre de amarras e da necessidade e me esconder por ser como eu sou. Com isso veio a necessidade de me expressar através das letras, e consequentemente a vontade de agregar o rap a isso – também uma contracultura, marginalizada e feita em sua maioria por pessoas negras e latinas.

 

Nauan: Você já sentiu algum preconceito dentro da indústria musical? Como você lida com isso?
Gloria: Ah, sempre, né? Por ser LGBTQ+ parece que a gente tem que provar ser 2x melhor do que o outro artista fazendo o mesmo som, pra obter algum reconhecimento. Mas graças a Deus acredito que estamos desenvolvendo um trabalho de primeira, que antes de qualquer coisa tem argumento e verdade envolvido, tá ligado? É muito mais fácil de fazer a galera entender a nossa arte através de uma luta real pela qual passamos todos os dias, porquê mostra que existe um propósito ali. E isso gera representatividade pras pessoas que são iguais a mim.

Capa do álbum “O Proceder”

 

Nauan: Gloria, seu trabalho é divino, forte e representativo e agora temos o álbum “O Proceder” como uma grande prova da sua majestade dentro da música. Como foi o processo de produção do álbum? Quanto tempo demorou? Como foi a escolha das músicas e do conceito?
Gloria: Muito obrigada!!! O Proceder foi um filho que levei mais de um ano e meio pra parir, entre idas, vindas, masters, mixes… Uma saga! Ser artista independente no Brasil é osso, sendo drag e fazendo hip hop então… Segura! As músicas todas são de autoria minha (exceto Madrugada que é um presente de dois amigos amados) e trabalhei com 4 produtores de jeitos muito particulares, alguns nem cheguei a encontrar, trabalhei de longe. Quando fui ver, eu tinha um projeto de 8 faixas carregando trap, hip hop, dancehall, R&B e ainda sim com identidade brazuca e narrativa drag. Esse é #OProceder (em todas as plataformas digitais, hehe).

 

Nauan: O clipe de Império marcou sua trajetória e vem dia após dia ganhando milhares de acessos. Conta um pouco do surgimento da música e do significado que ela tem para você.
Gloria: Império é uma faixa de trap de pista com tom social-político, produção do grande Evandro Cezar que estuda trap no Brasil desde 2011. Compus essa faixa no final de 2015, época em que estávamos gravando o Amor&Sexo na Globo, e lembro de sentir um orgulho muito grande do tom do discurso que consegui transmitir através da letra e do flow. Foi um divisor de águas pra mim enquanto compositora.
Nauan: Sobre o clipe, você ficou satisfeita com o visual e com tudo que o clipe é e representa para toda a comunidade LGBTQ+?
Gloria: A identidade visual desta música foi mais um trabalho meu em conjunto com João Monteiro e Pedro Lopes, que me ajudaram a chegar nessa atmosfera drag futuro pós-apocalíptico correlacionando com o que a letra sugere e recheando com referências pop. Império marca pra mim meu estabelecimento na cena e o sentimento de ter feito um trabalho completo e denso, que carrega não só estética mas a nossa vivência como LGBTQ+.

Imagem: Reprodução

 

Nauan: Sobre o novo single, Gloriosa. Quando sai o clipe e você pode nos dizer mais ou menos alguma coisinha de como ele vai ser? Por favor, rsrs.
Gloria: Gloriosa chega em Junho e só posso dizer que tá mais uma vez recheado de close, coreografia e produção bafo. E por enquanto é só! (risos)

Nauan: Gosto muito de falar sobre representatividade no blog e te acho uma das artistas que tem mais propriedade para falar do assunto. Em Império você fala bastante de legado e também da representatividade, das pessoas ligando a TV na Globo e vendo esse império crescer. Fala um pouco sobre como você vê essa representatividade e qual a relação que ela tem com sua carreira.

Gloria: A luta é diária pra que a gente consiga se unir e originar a nossa força dessa união. O mundo nem sempre está preparado pro que temos a dizer, e ainda lidamos com muitos desencontros dentro do nosso próprio círculo. A música me ajuda e me conforta ao imaginar que possa estar sendo tocada em qualquer lugar, a qualquer momento, e a possibilidade de que faça alguma diferença. É daí que tiro minha força, é claro, por conta do feedback dos fãs que são quem realmente faz o nosso trampo acontecer. Eles é que sabem como a nossa vivência é parecida, e que mesmo assim temos tantos motivos pra levantar a cabeça, sorrir e seguir quebrando paradigmas.

 

Nauan: Que conselho você daria para algum garoto ou garota que estejam querendo se montar como drags, mas tem algum tipo de receio na sociedade?
Gloria: Se estabilize e se baste. Seja a única pessoa de quem você depende para acreditar e executar seu trabalho como drag. O apoio dos outros é importante, mas é essencial que a base esteja firme. Se não tiver apoio da família, sem desespero, isso melhora. Busque apoio em amigos queridos, faça amigos novos, desvende a cena drag do lugar onde você mora, ou melhor ainda: comece-a! E sempre tente ser você mesmo apesar de alter egos, momentos, status e coisas do tipo.

Nauan: Gloria, manda um recado pros leitores do “Sério, Nauan?” que são seus fãs.

Gloria: Quero agradecer ao pessoal do “Sério, Nauan?” pelo espaço, fortalecimento e por vocês permitirem que o nosso trabalho aconteça. Esse reconhecimento é muito importante pra gente! Muito obrigada e vaaaaai segurando! 💋

Share This:

Nauan Sousa

Jornalista, social media e fã de cultura pop. Não gosto de determinar, prefiro analisar. Gosto de palavras, séries, doce e cerveja. Provavelmente você não irá com minha cara logo de cara, mas se você me der 3 minutos e 10 segundos posso te convencer que o 'Sério, Nauan?' vale sua visualização.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *