Crítica | Cheio de fórmulas simples e mensagem impactante, Okja é uma das melhores opções do catálogo da Netflix

Não esperava muito de Okja, filme produzido pela Netflix e dirigido por Bong Joon-ho, que vem gerando grande buzz por sua temática, porém me surpreendi positivamente com o bom roteiro e a excelente execução de toda a produção. Se vale seu “play”? Vamos descobrir logo a seguir…

 

Sinopse

Okja conta a história de uma nova espécie apresentada pela magnata Lucy Mirando (Tilda Swinton). Chamados de “super porcos”, 26 animais são enviados para países distintos em um concurso, para que cada fazenda que o receba possa apresentá-lo à sua própria cultura local. No fim desse concurso, que dura 10 anos, a intenção é eleger o melhor super porco. Porém, Mija (Seo-Hyun Ahn), uma das pessoas que convive com um desses super porcos cria laços com o animal e faz de tudo para que Okja (nome da super porca que cuida) não seja levada para Nova York para se tornar alimento.

 

A fórmula

Dada as suas devidas proporções, Okja usa fórmulas bem Disney para começar a contar a história de Mija e Okja. Um animal grande e fofo faz as honras do lado mágico do enredo e a amizade forte entre animal e criança ultrapassando barreiras e dificuldades ganha enorme apoio principalmente nas primeiras cenas do longa metragem. Até aí o filme não é novidade, porém utiliza bem os recursos que possui na mão para uma introdução de história, que, inclusive, poderia ser menos longa e ir mais rápido aos pontos chave que se apresentam somente após intermináveis demonstrações de “amigos para sempre”.

 

Mija também entra no cenário óbvio da protagonista que começa sua jornada com uma personalidade ingênua e termina como uma heroína forte e destemida. Só que os clichês do novo filme da Netflix são amarrados em uma história bem construída e inteligente, deixando o ar de “já sei como isso vai terminar”, mas jogando novos plots cheios de crítica social. O uso dos elementos cativantes nos leva a achar que Okja é totalmente previsível e até temos um grande cenário de como tudo vai se desenvolver antes do fim, porém temos algumas boas surpresas no caminho.

 

Polêmico enredo

Okja bate fortemente no consumo de carne animal na sociedade. O filme soa como um alerta não para a extinção deste consumo, mas para uma conscientização. Atualmente consumimos muito mais carne do que nossos ancestrais, que o faziam APENAS por necessidade. Hoje, há uma banalização deste tema, assim como não há a consciência dos processos que acontecem até o bife, linguiça, etc chegarem em nossas mesas. As cenas fortes do filme mostram a exploração animal para obtenção de lucros de empresas que não pensam em nada além da ampliação de consumo e isso é polêmico porque muita gente que critica o filme não se conforma em ser contribuinte dessa realidade.

 

Não vamos entrar no discurso moral desse tema após esse tópico, porém como carne e realmente fiquei mexido com o que assisti. A sua mensagem me fez ter o interesse de pesquisar mais sobre o tema e descobrir diversas realidades que não estavam ao meu alcance até então. Não, não vou deixar de comer carne nesse momento, sei que precisaria substituir por outro alimento, porém é necessário entender que existe um processo cruel e que não posso ser egoísta a ponto de ultrapassar uma necessidade para virar luxo enquanto há essa exploração. Até onde vai o ditado “o que os olhos não vêem o coração não sente”?

Filmes que nos fazem refletir quem somos e o que fazemos, não é esse tipo de produção que deveria ser mais valorizada do que apedrejada?

 

Elenco

Aliado com uma ótima mensagem, o elenco de Okja é afiado e mesmo que um ou outro deixe algumas cenas mornas de presente, há sempre um plot twist para quebrar a apatia. Seo-Hyun Ahn faz chover e nevar com Mija, que apesar de mergulhar no clichê da mocinha, vive uma transformação de personagem imensa. Tilda Swinton consegue transitar bem com suas duas personagens, Lucy e Nancy. Destaques também para Paul Dano, o líder da ALF (Frente de Liberação Animal) que é um elemento bem jogado na narrativa.

 

No resumão, o elenco pareceu bem integrado a cada personagem e situação, o equilíbrio perfeito sem grandes personalidades ofuscando umas as outras em detrimento de uma história maior. Isso é um ponto bem positivo para o objetivo final da existência de Okja.

 

Roteiro e algumas falhas

O roteiro do longa metragem é ótimo, pois mistura humor, crítica social e drama de uma forma muito inteligente, respeitando cada momento do filme. O único problema está na introdução bem arrastada e em algumas cenas em que Mija conversa em uma língua e automaticamente alguém responde em outra quando há segundos atrás estava necessitando de um tradutor. Claro que isso foi um recurso usado para acelerar as cenas, mas não foi uma das melhores decisões, pois foi bem confuso.

 

Figurino e cenário

Não há pecado em figurinos de Okja. Há talvez um toque de surrealidade muito bem pensada no vestuário da cena do concurso dos super porcos, mas que com certeza conversam com todo o enredo apresentado. Não é um grande ponto que o filme quis explorar, indo para uma vertente Jogos Vorazes, por exemplo, mas tem uma construção de pensamento para o que vemos na tela, há harmonia e por isso não há cobrança de nada icônico para esse quesito.

Já os cenários são elementos fortes que reforçam toda a história. O laboratório apresentado para exploração dos super porcos é realmente assustador, as montanhas que Okja e Mija cresceram passa tranquilidade e felicidade e dá o contraponto ao cenário urbano e conturbado que elas foram “jogadas” para sobreviver na trama. A crítica no longa metragem fica mais pesada quando analisamos esses ambientes que são base para mostrar o ritmo de vida que a sociedade leva e nem se dá conta do quão tóxico é.

 

Resumindo…

Okja é sim um dos melhores títulos de 2017 e vale a pena seu play. Caso ainda não tenha visto, prepare uns bons lenços e comece a ver a saga de Mija com olhar de aprendiz, de quem quer absorver algo. Okja é forte com mescla de cenas sensíveis e cruéis, tem sua magia, efeitos, uma forte amizade e a minha torcida para que vire um dos filmes mais assistidos na plataforma Netflix.

Bom trabalho, Bong Joon-ho!

 

Avaliação

Nota 4,5: Excelente

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Nauan Sousa

Jornalista, social media e fã de cultura pop. Não gosto de determinar, prefiro analisar. Gosto de palavras, séries, doce e cerveja. Provavelmente você não irá com minha cara logo de cara, mas se você me der 3 minutos e 10 segundos posso te convencer que o 'Sério, Nauan?' vale sua visualização.

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