Análise | Porque os artistas pop da atualidade pararam de se preocupar em ter talento para soltar shade?

O pop vive de suas fases, uma hora o pop farofa toma de conta, em outros momentos temos que nos adaptar a uma versão acústica, mas uma vertente (que não é nenhum pouco nova) vem ganhando uma visibilidade desproporcional. É o pop shade, chamaremos assim. Você com certeza já consegue imaginar do que estou falando e até consegue exemplificar em nomes os artistas que estão super valorizando suas brigas na mídia para lançar o famoso shade, criar um hit e escalar ao topo das paradas. Com apoio involuntário de uma mídia sedenta por fofoca, nos últimos anos foi bem interessante observar o marketing em cima desse tipo de som que serve de pauta para TMZs da vida. Mas você já parou para pensar o que a gente perde com isso? Ok, vamos com calma e do começo…

 

Desde que mundo é mundo o shade existe. Para quem não sabe, shade é indireta, é aquela pessoa que briga com você e você solta frases no facebook para ela, mas sem marcar o @ e torcendo para que a timeline dela passe sua publicação mil vezes. No mundo do pop essas indiretas sempre foram fortíssimas, e claro, ganhavam singles quentes. Lá em meados 2002, Britney Spears e Justin Timberlake formavam o casal mais comentado do mundo pop, e a separação dos dois não foi nada tranquila. Com os tablóides em cima, Justin fez questão de lançar um clipe chamado “Cry Me River” com uma sósia de Britney e trechos como “Por quê você me deixou, sozinho? Agora você me diz que precisa de mim”. Claro que a indireta foi recebida com sucesso e a declaração que a mídia tanto queria sobre o caso agora era uma música, um hit que ganhou diversas indicações para prêmios de MTV e uma promoção involuntária da imprensa, já que todo mundo queria comentar o shade. Mas, a história não parou por aí… Britney lançou em 2003, “Everytime” que foi apontada diretamente para Timberlake. Na música a princesa do pop diz “Eu me sinto tão pequena. Acho que preciso de você, amor” e em seu clipe mostrou um pouco o quão estava sufocada e pressionada com a mídia em cima do relacionamento deles.

 

Já em 2001, um pouquinho antes do relato acima, o rapper Eminem teve algum casinho com Mariah Carey. Pelo menos foi o que ele espalhou na mídia e aos quatro ventos. A cantora negou tudo. Em uma entrevista? Não, em um hino chamado “Obsessed” em que ela até encarna o próprio Eminem. No som a musa do grito diz frases como “Todos os blogs dizem que nos encontramos no bar. Quando eu nem sei quem você é”, “E ninguém aqui nem mesmo menciona seu nome. Deve ser a maconha, deve ser o ecstasy. Porque você está exaltado, ouvi que você está exaltado”, “Finalmente encontrou uma garota que não conseguiu impressionar. Nem se fosse o último homem na terra teria chance” e “Fica todo animadinho com esse seu complexo de Napoleão. Vendo através de você como você está tomando banho em Vidrex”. Uma porrada? Sim, uma porrada musical conhecida até hoje. Eminem revidou com um single esquecível e machista (mais um, né?) que não merece ser mencionado. Já Mariah, é Mariah, né mores?

 

E hoje em dia? Sim, hoje em dia o shade voltou com absolutamente tudo. As pessoas lembraram que só existe uma equação para a mídia. Você briga com alguém, eles vão até debaixo do pinico do cão atrás de uma declaração sua. Então, porque não transformar isso em música e fazer os blogs e portais divulgarem isso como pauta e ganhar mais views? Isso nos leva ao caso de dona Taylor Swift. Viciada em indiretas, a cantora já deu diversos shades para exs namorados em videoclipes. Harry Styles já ganhou dois singles e nem teve a oportunidade de dizer que não queria fazer parte dessa narrativa. Mas Taylor continuou e mais exs ganharam singles, até que ela se desentendeu com a cantora Katy Perry e ao invés de pegar um telefone e dizer “Katy, não gostei do que você fez”, ela foi até uma revista disse que tinha uma treta com uma artista e que sua música Bad Blood era para ela. O mundo ligou lé com cré e o fuzuê estava formado. Bad Blood ganhou um vídeo onde mulheres lutam umas contra as outras. Isso é certo? Não! Mas Taylor fez e o mundo pop vibrou.

 

A atitude nada adulta de Taylor foi fazer um clipe juntando um squad contra a inimiga, mais ensino médio impossível. Mas a mídia divulgou muito o videoclipe iniciando uma treta secular. Se Katy ficou na sua? Jamais. Ela esperou uma nova era para soltar essa…

 

Aí você pensa “Como Katy é madura, não caiu nessa criancice da Taylor”. Reveja o vídeo, ela fala de “Karma” várias vezes. Isso tudo para promover um single chamado Swish Swish feito sob medida para Taylor, com capa single de uma nota fiscal vencida numa cafeteria chamada Karma. No clipe oficial, um lobo em pele de cordeiro é visto, e durante a treta foi como ela chamou o desafeto no Twitter.

 

Taylor, então, disponibilizou todas as suas músicas em streaming no dia do lançamento do novo cd de Katy e lançou single de retorno no dia marcado para Swish Swish ganhar clipe. Vocês estão entendendo? Um desentendimento por uma besteira vem se arrastando há anos, a ponto de Taylor boicotar outra cantora quando as mulheres deviam se apoiar, pois foi um ano em baixa para divas pop. SAIU DOS CLIPES PARA A VIDA! Os fãs de cada uma delas dizem que elas esqueceram a treta, mas nós não somos burros. Elas sempre estão se alfinetando e agora tem esses boicotes. Isso não é nada saudável para o pop e nem para as divas que carregam o segmento musical.

Diferente dos outros casos já citados aqui, Taylor e Katy não tem motivo real para tanto. Elas claramente estão jogando fan bases uma contra outra para ganhar visibilidade e vender singles. Sim, as duas. Estão erradas. Estão exageradas. Estão dando um exemplo horroroso de como lidar com problemas e vender sua música. Mas você pode achar: “ninguém segue esse exemplo”. Não? Então me expliquem porque o grupo Fifth Harmony precisou fazer isso no VMA para finalmente ter uma performance comentada…

 

Vemos nos primeiros segundos uma dublê representando a antiga integrante da girl band, Camila Cabello, sendo arremessada do palco. Tudo isso sem motivo. A menina saiu da banda, ok, prossigam. Não, as quintas provavelmente viram o tamanho da visibilidade que o “Katy X Taylor” ganhou e veio vender álbum com esse absurdo de mulher contra mulher novamente. Lembrando que uma das integrantes, Lauren, tinha brigado dias antes com um jornalista porque achou que ele tentou colocá-las contra Camila. Amore, como você se defende depois de uma performance desnecessária dessa?

O lance do mulher contra mulher é muito louco. Sabemos que a indústria fonográfica é machista, que desde os primórdios promove essas guerrinhas para deixar subentendido que só há espaço para uma. Não, há espaço para todas e ninguém precisa alimentar esse tipo de mensagem. O problema não é o shade em si. Ele pode ser engraçado e divertido, como pode ser fundamental (leia-se Mariah que teve um cara expondo sua vida íntima na mídia), mas essa briga generalizada de colégio enfraquece o segmento musical e dá uma queda imensa na qualidade do pop. Sim, o uso da credibilidade conquistada a duras penas de um segmento musical para resolver brigas idiotas o engraquece. Isso compromete até conceito. Afinal, esses artistas estão mais focados em dar uma resposta para as inimizades do que fazer boa música. O resultado é um álbum fraco e hits de iTunes, criados para vender e serem esquecíveis.

Você deve estar pensando “ah, mas Taylor lançou Look What You Made Me Do e está arrasando”. GENTE, BAD BLOOD TAMBÉM ARRASOU EM VIEWS E ITUNES, MAS NUNCA CHEGARÁ AOS PÉS DE TOXIC, THRILLER, LIKE A VIRGIN, BAD ROMANCE E OUTROS HINOS DO POP. Taylor tem uma puta estrutura que poderia ser direcionada a um grande HIT ATEMPORAL, aí ela pega isso e faz um Bad Blood 2.0. Look What You Made Me Do tem 11 shades detectados. O-N-Z-E. Gente, ela precisa de um psicólogo urgente! O marketing tá ok, mas dizer que isso é saudável? Não, pessoal, não é! Ela vai fazer 20 clipes com a mesma temática, capaz de quebrar milhões de recordes e mesmo assim não tem nada memorável além de views. QUE COISA TRISTE!

 

E aí chegamos junto ao ponto que nos traz aqui: Porque os artistas pop da atualidade pararam de se preocupar em ter talento para soltar shade? Por preguiça. É! Pop shade é fácil de fazer, traz views, não precisa de um conceito de um álbum, tem fácil divulgação porque plataformas de mídia que normalmente não publicam clipes passam a divulgar para enaltecer uma briga, você ganha views e visibilidade de imagem. Nem sempre o pop shade é um sucesso estrondoso. O clipe de Swish Swish, por exemplo, não é um dos melhores desempenhos de Perry, mas foi com o hit que a cantora conseguiu chamar atenção para uma era (Witness) que ninguém estava prestando atenção. Já 5H não tem indiretas em músicas, o que é pior, afinal a música não tinha nada para Cabello e fizeram aquela tristeza numa performance que por si só poderia ser icônica para a banda, já que o restante foi legal. Taylor parece não saber fazer música se não for sobre os outros. E aí, o cenário está dessa forma. Todos x Todos, juntos para ganhar views.

Como já disse, shade pode ser legal. Uma vez ou outra é necessário. Mas não para sempre, não para endossar disputas erradas, não para dar base a uma carreira. O motivo, simples, o pop shade é feito para “lacre” e não para a história.

 

 

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Nauan Sousa

Jornalista, social media e fã de cultura pop. Não gosto de determinar, prefiro analisar. Gosto de palavras, séries, doce e cerveja. Provavelmente você não irá com minha cara logo de cara, mas se você me der 3 minutos e 10 segundos posso te convencer que o 'Sério, Nauan?' vale sua visualização.